segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Inimigo

 


Sou o anjo negro que anseia por não o ser.
Desejo ser de luz e sinto que nada sou.
Apenas sinto que tudo o que faço e sinto é negro.
O inferno tem tentáculos que me sugam para as profundezas de uma escuridão sem precedentes.
Porque é que a vida não é simples?
Sinto-me o cavaleiro negro medieval que embora me guie por um código de honra talvez seja o código errado.
Por onde quer que vagueie verifico que vou sempre dar a um campo de batalha.
Já não quero combater mas o braço e o corpo não deixam que isso aconteça.
Será que é a alma e a mente que continuam sempre a batalhar mesmo em sonhos?
Quem sou afinal? Porque é que tudo em que toco se torna negro?
As sombras do passado perseguem-me, são fantasmas devoradores que me consomem a alma e a consciência.
Porque é que não vivo antes na luz como tanto almejo?
Luto contra tantos inimigos e nunca lhes vi o rosto, destruo e dizimo quem se aproxima do meu campo de batalha.
A verdade é que sempre lutei sozinho.
Luto contra um demónio escuro e forte que me arrasta para um fogo sem chama das gargantas de Hades.
Quero tanto ter uma armadura branca e outro código de Honra.
Nunca obtenho nada do campo de batalha, nem sequer o rosto de um inimigo, imagino que seja hediondo.
Um dia levantarei uma viseira e terei a coragem de contemplar quem me quer arrastar arrastar para o fundo.
O desespero para ser alguém para além de um Anjo negro é gigantesco e a luta dentro de mim é titânica.
Mais uma contenda que se aproxima e mais uma vez a minha velha armadura e corpo se embalam em mais uma dança de morte.
Por desdita sorte e num golpe arranco um elmo e vislumbro o rosto de um inimigo.
Atiro os joelhos por terra e choro as lágrimas arrancam-me a pele do rosto, verifico que o meu inimigo é imortal e sempre esteve presente em todas as batalhas. 
Em todos os cadáveres o rosto é sempre o mesmo, o meu rosto.
Eu sou o meu próprio inimigo, o meu próprio demónio e o meu próprio carrasco.
Sou o meu anjo negro, afinal o campo de batalha sempre foi dentro de mim.
Apercebo-me agora que terei de rezar a Deus para que me traga para a sua luz e faça de mim aquilo que sempre quis e nunca soube como fazer porque eu sempre fui o meu pior inimigo.

2 comentários:

  1. Todos nós temos esse inimigo dentro de nós com roupagens diferentes, acredito eu que o AMOR vence tudo, cultivando-o em nós momento a momento esse anjo negro acaba por sucumbir sem esforço nenhum pois o foco está inteiramente no que queremos para nós. Belíssimo texto, faz-nos reflectir no que temos por resolver dentro de nós, grata.

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  2. Espetacular. Muito idêntico aos que eu adoro escrever. Um dia mostro. Ou melhor podes ver no meu blogue que abandonei há muito. Abraço.

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